Maria Rita Kehl | 25.05.2011, 15:40
Amigo muito querido,
Preciso colocar nesta carta o que hoje não me sai do coração: enquanto estou no consultório, o congresso vota o novo Código Florestal.

Já escrevi contra o projeto do Aldo Rebelo quando tinha a coluna no Estadão. Todos sabemos o quanto o projeto é lamentável, quanto é cínica a alegada defesa dos pequenos proprietários – que só favorecerá os grandes – feita pelo deputado do PC do B. Ele sabe disso, também. Já reparou na expressão constrangida, envergonhada mesmo, que ele tem nas fotos e entrevistas na TV, desde que encampou a bandeira da devastação do que restou de verde no interior do Brasil? Sabe que o projeto favorece quem tem muito dinheiro, inclusive para comprar pequenos lotes e se livrar da obrigação da reserva legal. Sabe que a probabilidade de o clima aquecer, de os rios minguarem, de a terra ressecar é imensa. O estrago vai surgir em menos de três gerações. O argumento de que os ecologistas defendem as árvores em vez das pessoas é hipócrita. Nem sou ecologista militante, mas sei que a vida precisa de água, de sombra, de terra fértil, assim como os pequenos agricultores precisam de condições para plantar alimentos, uma vez que os grandes fazendeiros plantam cana, eucalipto e soja para combustível, papel e exportação. O que escrevi no Estadão era mais bem fundamentado do que este desabafo, e me rendeu uma carta-resposta particular, em que o nobre deputado disse que eu não deveria escrever sobre o que não conheço. Ha ha há. Se aquele projeto foi escrito por quem “conhece”, posso me considerar especialista na matéria.

Este foi meu desabafo panfletário.

O outro lado da minha defesa é lírico. Queria que a parte rural do Brasil continuasse bela. Como é prosaica, como é desencantada a paisagem que vejo do avião quando sobrevoo Mato Grosso e Goiás: a desolação dos pastos e das plantações de soja, desertas, sem gente nem água nem bicho, com uma casinha no meio e um ou dois tratores no campo. O povo que ali morava agora vive triste numa casa de periferia da cidade mais próxima. Como é sem graça a paisagem do dinheiro.

Não venham me dizer que eu vivo fora da realidade. Onde é a realidade? Ninguém vive nela, só os economistas e os lógicos, esses tipos sem poesia nenhuma. Os outros todos vivem entre o real e o imaginário, e é tão bom que seja assim. Na década de 1980, eu escrevi um artiguinho em que dizia que as reservas ambientais são nossas reservas de imaginário. Precisamos da natureza como nosso Outro, para que a cara do mundo não se reduza a nosso espelho, ao espelho do que temos de pior: nossa capacidade de destruir e explorar.

Nunca vi uma onça no mato, nunca passei por um ninho de araras-azuis nem por um bando de macacos brincalhões. Mas preciso que eles existam no mesmo mundo que eu, assim como preciso de um referente para a palavra queridas como roça e sertão.

Termino com a letra de uma canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira que não posso cantar no blog, mas canto aí na Urca pra você e Cri, logo mais. (clique abaixo para ouvir)

Automóvel lá nem se sabe/ se é homem ou se é mulher/ quem é rico anda em burrico/ quem é pobre anda a pé.// Mas o pobre vê nas estradas/ o orvalho beijando a flor/ vê de perto o galo campina/ que quando canta muda de cor/ vai molhando os pés no riacho/ que água fresca, nosso Senhor/ vai olhando coisa a granel/ que a gente pra mor de ver/ um cristão tem que andar a pé//

Ai ai, que bom/ que bom, que bom que é/ Uma estrada e uma cabrocha/ no sertão de Canindé/ Ai ai, que bom/ que bom, que bom que é/ uma estrada e a lua branca/ e a gente andando a pé.

Linda, não? A melodia é maravilhosa. Mas pena, do jeito que a coisa está, só vai sobrar a lua cheia. Penso no que Walter Benjamin escreveu sobre a Europa durante a primeira guerra, uma paisagem destruida diante da qual os homens só teriam alguma familiaridade com as nuvens no céu. E olhe que nada é mais mutável que as nuvens no céu. Muitos beijos de sua amiga momentaneamente desolée,

Rita.

Ngunzo (adaptado)


Eu vim da mãe Africa
eu vim do quilombo
já fizeram tanto
preu tombar, não tombo

Se eu for agora
venham os meus atrás
venham por todo lado
meu povo é muito mais

tenho a virtude dum povo guerreiro
eu propago a paz
e a paz eu aconselho


por: Jackie Severina

No coletivo



Tava voltando do Centro depois de uma tarde de ralação (dizem por aí que Psicólogo não rala). Tinha sido um dia cheio de seres desejantes, conflitantes, pedintes do meu, meu socorro, a tarde inteira...

Daqueles dias que a gente chega em casa precisando é de um bom banho e de um(a) supervisor(a). Daqueles dias que o cansaço bate, sabe?

Depois de passar um dia assim, no limiar entre o mundo do trabalho e o mundo da loucura do trabalho, a loucura por voltar para casa sem trânsito, sentada e num ar condicionado, era tudo que me passava pela cabeça.

No entanto, naquele dia, e na maior parte dos dias, o capital não foi generoso comigo, pertencente à classe dos(das) “fudidos(as)-privilegiados(as)”. Tive que voltar de ônibus, sim (e com muito orgulho), às 19h15m de uma noite de Quarta-feira.

O pior é que era Quarta, um dia tão, tão sem sal.
- Que dia é hoje? Quarta, e não vejo nada que me excite. Quarta, bem na metade da semana.
Tudo bem que eu já havia superado o Domingo à tarde e a Segunda de manhã, vá lá. Mas, Quarta não significava nada para mim, só que Sexta-feira à noite estava para chegar...

É, talvez tenha sido isso, exatamente isso: eu pensei que já tinha superado a Segunda e que a Sexta estava chegando!

Bem, numa Quarta-feira, no final do expediente, você não tem como escapar: todos os ônibus, metrôs e avenidas estão lotadas. A saída seria ficar no centro, tomar uma breja num boteco até às 22h, 22h30m. Tirando uma média de 1 cerveja a cada 30minutos, até às 22h30m eu deveria tomar umas...oito. Oito cervejas numa Quarta-feira e sozinha, nem pensar!

Tomei foi a desculpa de cuidar melhor da minha saúde, guardar alguns trocados para o fim de semana e minha reputação: onde já se viu uma Psicóloga tomando oito cervejas, sozinha, num boteco no Centro da Cidade, na Quarta-feira?

Nesse devaneio, entre o caminho do trabalho para o ponto de ônibus, entrei no primeiro lotado, evidente, que passou na minha frente. Espremida, como todos naquele recinto (com exceção de um senhor, um pouco acima de seu peso adequado, que se esparramava num banco à esquerda, no meio do ônibus), consegui arrumar um lugar ao sol.

Evidente que às sete horas da noite, um lugar ao sol não é um lugar para sentar, evidente que não, mas foi o melhor lugar que pude encontrar: um lugar para segurar com as duas mãos! A mão direita esticada, presa no ganchinho do teto, imóvel. Com o braço esquerdo eu segurava uma pasta (a pasta da psicóloga, “o que será que tem lá?”), ao mesmo tempo em que a mão segurava o encosto do banco a minha frente, quase colada a custo de muito suor e da cabeleira de uma estudante, que, coitada, insistia em deixá-la solta e esvuaçante sobre o encosto.

No meio dessa vivência torturante, os muitos olhares não se encontravam. Estavam todos preocupados em “Como vou me segurar se o motorista der uma freada daquelas?!”.

Eu, como já havia me acomodado¬_ mas nem tanto quanto o senhor com o peso acima do seu ideal sentado à esquerda do ônibus (NA JANELA!), estava em melhor situação que outras que se apoiavam com uma ou nenhuma mão (como os tantos trabalhadores lesionados por Esforços repetitivos que eu havia atendido á tarde inteira). Pude assim, lançar meu olhar sobre o que estava acontecendo ao meu redor.

Fiquei envolvida em perceber as pessoas, no que poderiam estar pensando, nos possíveis sonhos que elas teriam, no que deveriam Ter trabalhado o dia inteiro. Como cada um ou cada todos experenciavam aquela situação, vivenciavam o suor de um desconhecido diariamente após um dia de trabalho (com exceção, de algumas pessoas adormecidas e/ou esparramadas, que que empurravam os outros contra aquele corredor quase que polonês).

Aí, mais uma vez: Pimba! Tava eu “psicologizando” o mundo. Logo eu? Levando trabalho para casa! Como aquela telefonista que atende: ”Banco do Brasil, Marlene, Bom dia!”, que passa dezenas de horas repetindo a mesma coisa: ”Banco do Brasil, Marlene, Bom dia!”, e quando tem a sorte, ou azar, de ter telefone em casa, acaba uma hora ou outra atendendo: ”Banco do Brasil, Marlene, Bom dia!”, aí, a sogra (quando se tem a sorte ou azar de ter uma), ou qualquer outra pessoa do outro lado da linha responde: “Marlene, você tá louca? Hoje é domingo!”.

Pois é, já eram quase 20h e eu estava lá, naquele ônibus, trabalhando...

Foi quando me veio a cabeça: que loucura esse mundo do trabalho! Que se mostra presente, mesmo quando deveria estar ausente, num momento de folga!

Como uma boa psicóloga, o devaneio não parou por aí.

Literalmente eu estava sendo torturada naquele ônibus, braço para cima, mão firme, suor, cansaço espelhado no meu rosto refletido na janela do ônibus, no meu e de todos aqueles corpos, entregues. Entregues ao trabalho, à vida dura que Dr. Capital determinava, silenciosos de suas (nossas) vontades (se é que existe alguma vontade que nos seja própria), vontade de que o mundo não funcionasse sob aquela ordem (maldita ordem!) que utilizava dessa tortura sutil, invisível e cotidiana de ficar pendurado num coletivo lotado, suado.

“Uma dose diária e sutil de tortura silenciará nos corpos desejos socialistas”, diz o Capital, que ainda alerta:

“De vez em quando é bom dar aquele trato, regado a cachaça, ou a cerveja (como é o meu caso, na Sexta-feira à noite),que é para ninguém dizer que não sou tão mau assim”.

Seguido de algumas gargalhadas completa:
“E tem aqueles que basta uma trepadinha para acharem que o sofrimento que imponho dia a dia vale à pena!” Ah!Ah!

Não dava para desafiar o silêncio imposto (afora dos passageiros em celulares) e coletivizar dentro do coletivo (lê-se, também, ônibus), tudo que eu estava sacando naquele momento e continuei conversando comigo mesma. Além do que, se o Dr. Capital ficasse zangado poderia apertar o pé direito do motorista no fundo do pedal do meio e nesse caso a freiada seria fatal.

Encontrei uma solução positiva. E feliz da vida eu pensava: dava para escrever sobre isso: quem sabe sob o título pomposo: “Novos métodos de tortura da sociedade capitalista contemporânea”. Só que apesar do título, nada daquilo era novo.

Femi Kut em sampa...

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/subindex.cfm?Paramend=1&IDCategoria=6896

Sejamos a mudança que queremos ver no mundo. Gandhi.