tour da inquietação



Quieta. Desarvorada

Molhada e escorrida na corrida das coxas

Nos vales

Vai seguindo sendo a outra

Vai surgindo sendo a louca

Enfiada no escuro buraco luminoso

Do novo

Engole esse segredo

Digere esse calor

Desfalece o capricho dessa timidez

Seria mais fácil

Se eu fosse boba e seus dedos fossem ilusão

Se fosse só tesão

Seria sem complicação

Se falar não nos fosse bonito

Se a banalidade fosse a rainha

Da situação

Quieta, desarticulada

Anda pela casa como quem segue uma estrada sem curvas

E o caminho é cheio de avisos

Tudo é bonito e grave a 100 metros mas ela não lê

Molhada e perdida jorra nas escadas

E acompanha a despedida

Querendo a chegada

Faz cortejo ao aceno

Ao intervalo, ao corte obsceno

À desembolação dos corpos

E no entanto tudo era camisa de seda

Amarrotada como esse tipo de coração

Sua voz entra nos meus buracos

E grita em cada um deles em oitava

Oito canais... bananeiras de saudades, canaviais

(E eu que não tava esperando, meu Deus).

Perambula pela sala, fura o tapete

De tanta repetição de passos no mesmo lugar

Não nota

O disco volta, arranha, repete e fura. Ela não vê

Não ouve não fala

Caminha pelas alas

Comissão de frente

Comichão de gente

Ela não entende

Essa estranha capacidade que tem pra entender

E nem consegue pensar em seus dedos dentro dela

Essa insistente boca no peito dela

Esse cheiro de cabelo seu que de repente

Invadiu as samambaias da casa

Esses lábios chamando chamando

Beija Beija Beija

Arranca os lábios e doa

Assanha outros lábios e esquece

Quieta por fora inspeciona os cômodos

Vê se as paredes não vão cair

E seu verdadeiro incomodo

E apenas essa ebulição pelo corpo

Verão de emoção

Vê se vai ser possível dormir

não sabe se lava o copo em que ele bebeu água

não sabe nada

tem apenas escrúpulos e sabe que não se passa detergente

Em lembranças

Ela é doida

Pisa em guimbas

Morde os ares

E ele permanece na casa feito incenso

Ela perdeu o senso

Olha a cama onde ele não ousou pousar

E quer deitar nesse aonde

Quer esse monstro esse monge

Que está pregado na fronha e no lençol

Ele que mesmo sem se deitar

Nunca saiu de lá

Quieta. Desembestada

Amanhã faz show, paga as contas

Queira só fazer versos

Mas há um difícil pássaro

Concentrado e disperso

Que lhe enche de liras

E a põe em conexão

Com o universo.


Elisa Lucinda – O Semelhante

4 comentários:

Dona da Vida disse...

elisa arrasa com a gente... perfeita...
e muito semelhante...

monica disse...

escrita do jeito que tem que ser: em delírio. em fuga. nas extremidades...
de suprimir o ar, sufocar em suspenso!!
tão absurdamente doce
tão absurdamente cruel
tão isso

tantas coisas na cabecinha, que as vezes desconfio que não vai caber. bjs

líquida disse...

mas não cabe mesmo...

líquida disse...

ô claudia, cadê? to esperando....